Relatório “Fios da Moda”

Com o que se faz moda? Com fios e fibras, não é mesmo? Por isso o relatório “Fios da Moda: Perspectiva Sistêmica Para a Circularidade” é tão importante para os profissionais da moda e para a indústria têxtil. É um estudo vasto, com muitos dados e informações inéditas sobre as principais fibras produzidas no mundo e o mais legal em tudo isso, é que tem foco na produção brasileira.

“Fios da Moda” é a primeira publicação responsável por analisar, de forma qualitativa e quantitativa, os impactos socioambientais da produção das três fibras mais utilizadas na indústria da moda: algodão, poliéster e viscose. Te convido a ler não apenas esta matéria, mas o relatório “Fios da Moda” que tem o link disponível no final deste conteúdo.

Coordenado por Marina Colerato, que é diretora executiva do Modefica, o relatório está dividido em três partes: conceitos da economia circular e a dinâmica da reciclagem têxtil; ciclo de vida, impacto e produção das três fibras; alternativas e cenários possíveis para a implementação da circularidade na moda e de que maneira a sociedade civil, iniciativa privada e setor público podem se engajar. Uma boa causa, não é? Para todos se envolverem. Tem base bibliográfica no New Textile Economy (Ellen MacArthur Foundation), pesquisas da Textile Exchange e Mapa de Conflitos da FioCruz, além de diversas teses e artigos de pesquisadores e acadêmicos.

O grande objetivo do “Fios da Moda” é fornecer conhecimento para os profissionais têxteis, de modo que possam pensar projetos de moda mais sustentáveis, com produtos que causem menos impacto negativo ao meio ambiente, pois esta parece ser a grande sacada futurística: as marcas de moda estão pensando o sustentável, o politicamente correto.

Do algodão orgânico de origem responsável até a manufatura humanizada, as marcas estão se reinventando e tornando-se cada vez mais conscientes, assim como a população, com 47,1% das pessoas afirmando que a sustentabilidade é “muito importante” para a decisão de compra.

Extraídas do relatório

1 – Lixo têxtil

Você sabia que diariamente toneladas de lixo têxtil são jogados fora e levados para aterros sanitários? Segundo o relatório “estima-se que as perdas nas várias fases da etapa de fabricação de camisetas estão na ordem de 50% para o algodão, 31% para a poliamida e 29% para o poliéster. Em todos os casos, a etapa com maior perda é a confecção (corte e costura) – responsável por 25%”.

O relatório informa que um equivalente a 16 caminhões de lixo é o total de resíduos têxteis destinados ao aterro sanitário todos os dias na região do Brás, em São Paulo.

2 -Economia circular

A economia circular é uma alternativa para acabar com o problema do lixo têxtil. No relatório o conceito de moda circular é “intimamente relacionado com um sistema de produção e consumo de ciclo fechado, que tem como base a reciclagem, reparação e reutilização dos materiais e insumos utilizados durante todo o processo produtivo por diversas vezes.”

Em 2020, para compor o relatório “Fios da Moda” foi realizada pelo Modefica com apoio da FGV e Regenerate, uma pesquisa online de mapeamento de consumo. Ela mostrou que “56,8% das pessoas estariam dispostas a reciclar suas peças de roupas se soubessem que seriam realmente recicladas, enquanto outras 26,3%  foram motivadas por terem um ponto de coleta por perto e, 49,9% nunca ouviram falar sobre reciclagem de roupas no Brasil.”

3 – Algodão

O Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de algodão do mundo. É destaque na produção do algodão certificado Better Cotton Iniciative (BCI) e responde a 30% de toda sua produção do globo. E, quem diria, essa enorme produção vem acompanhada do uso alarmante de agrotóxicos e pesticidas!

De acordo com o relatório, “em 2018, um estudo feito com mulheres expostas ao glifosato (agrotóxico destaque na produção de algodão) em Uruçuí, no sul do Piauí, estimou que uma em cada quatro grávidas da cidade sofreu aborto espontâneo e que 83% das mães tinham o leite materno contaminado”. Somente o algodão agroecológico apresenta uma das saídas desse labirinto de poluição.

O cultivo de algodão orgânico reduziu as emissões de GEE (Gases de Efeito Estufa) em 58%. Ainda conforme o relatório, a produção brasileira representa cerca de 0,7% da oferta mundial de algodão convencional e o Brasil ocupa a 16ª posição no ranking, com 22 toneladas de algodão orgânico, o equivalente a apenas 0,01% da produção mundial e menos de 0,1% da produção nacional.

4 – Poliéster

É uma fibra que pode ser reciclada com mais facilidade. O relatório diz que “a produção de poliéster reciclado requer 59% menos de energia do que a fibra convencional. Além disso, as emissões de GEE são reduzidas de 25% a 75%, dependendo do tipo de tecnologia empregada”.

A pesquisa aponta que dados sobre outras categorias de impacto além do consumo de água, uso de energia e mudanças climáticas são raramente relatados para fibras sintéticas, como o poliéster.

O poliéster tem seus principais impactos ambientais associados ao uso de energia e ao uso de combustíveis fósseis, por ter o petróleo como base. Já em relação a outros impactos na qualidade da água, a produção de resina sintética para fibras artificiais afeta a qualidade do ecossistema.

5 – Viscose

É uma fibra artificial de origem celulósica. A rede produtiva está localizada no continente asiático, representando 40%. O Brasil somou 11% de participação da celulose solúvel em 2019, ficando entre os 10 principais produtores globais.

Aproximadamente 30% da viscose é proveniente de árvores de florestas nativas e ameaçadas de extinção, incluindo a Amazônia, aponta o relatório e informa que o impacto do uso da terra é influenciado pela produtividade da madeira (principal matéria-prima para a produção de viscose) e, portanto, varia de região para região.

O estudo também mostra que o número de viscose certificada tem aumentado de cerca de 35% da produção global, em 2015, para uma média de 80% em 2018.

Como acessar?

O relatório pode ser acessado e baixado no site da Modefica, uma plataforma que traz assuntos sobre moda e comportamento transdisciplinar com foco na sustentabilidade e no futuro. Confira no link a seguir, a riqueza da pesquisa “Fios da Moda”.

Por Giovana Petrocele